Estudo da FGV para a CLIA Brasil mostra que a redução de dois navios na temporada 25/26 resultou em 235 mil cruzeiristas a menos
Por Aline Andrade
A retirada de dois navios da temporada brasileira de cruzeiros 2025/2026 teve efeito direto sobre o tamanho da operação no país. A frota caiu de nove para sete embarcações, enquanto o número de cruzeiros realizados recuou de 204 para 160 e a oferta total passou a 672.437 leitos. Como consequência, o Brasil deixou de receber 235.232 cruzeiristas, uma redução de 28,1% em relação à temporada anterior. Os dados são de estudo da FGV realizado para a CLIA Brasil.

E se fosse apenas um navio? Em uma projeção proporcional, a retirada de uma única embarcação poderia representar cerca de 117.616 cruzeiristas a menos no país. O número ajuda a dimensionar o impacto da redução da frota sobre a movimentação da temporada, embora seja uma estimativa, já que cada navio possui capacidade e perfil operacional diferentes.
Mais do que uma redução no número de navios atracados nos portos brasileiros, os dados mostram como uma decisão de alocação da frota pode repercutir em toda a cadeia de turismo. Cada embarcação retirada representa menos cruzeiros, menor oferta de leitos, menos embarques e desembarques e, consequentemente, menos circulação de viajantes nos destinos incluídos nos roteiros.

Dois navios a menos, quase um terço de cruzeiristas a menos
Na temporada 2025/2026, o Brasil operou com sete navios de cabotagem, contra nove na temporada 2024/2025. A redução de 22% na frota veio acompanhada de uma queda de 21,6% no número de cruzeiros, de 204 para 160.
A oferta total chegou a 672.437 leitos ao longo da temporada, com 8.056 tripulantes trabalhando a bordo das sete embarcações. O impacto mais expressivo apareceu no número de cruzeiristas embarcados, sendo 235.232 viajantes a menos, uma retração de 28,1%.
Segundo a análise da FGV, a queda pode ser explicada integralmente pela combinação de dois fatores: 22% menos navios e uma redução de 7,5% no número médio de cruzeiristas por embarcação. Em outras palavras, a perda de dois navios não significou apenas duas embarcações a menos. Ela reduziu a capacidade de geração de viagens de toda a temporada.
A conta começa antes do navio chegar ao Brasil
A decisão sobre quantos navios serão destinados ao país não é tomada no início da temporada. De acordo com o estudo, a definição da frota ocorre nas sedes globais das companhias com 24 a 36 meses de antecedência.
Isso coloca o Brasil em uma disputa internacional pela alocação de navios, principalmente com mercados consolidados como Caribe e Mediterrâneo. Por isso, a quantidade de navios que efetivamente opera na costa brasileira depende de uma combinação de fatores analisados pelas companhias de cruzeiro muito antes da abertura da temporada: potencial de mercado, demanda, infraestrutura, custos operacionais, condições portuárias e atratividade dos destinos.


A consequência é que uma redução pode ser resultado de decisões tomadas até três anos antes.
Menos navios significam menos oportunidades para os destinos
O impacto não fica restrito aos portos de embarque
Um navio de cruzeiro movimenta uma cadeia que envolve transporte, alimentação, comércio, receptivo turístico, passeios, serviços portuários, abastecimento e contratação de mão de obra. Nas cidades que recebem escalas, os cruzeiristas representam demanda adicional para restaurantes, atrações turísticas, comércio e transporte.
Quando uma embarcação deixa de integrar a temporada, portanto, os destinos perdem também parte das oportunidades de receber esses visitantes.
O efeito é especialmente relevante porque a redução da frota acontece simultaneamente à diminuição do número de cruzeiros. Na prática, há menos datas disponíveis para embarques e escalas ao longo da temporada.
Quanto custa, afinal, perder dois navios?
Os dados da FGV para a CLIA Brasil permitem dimensionar claramente o primeiro nível dessa conta: menos navios significam menos capacidade, menos cruzeiros e menos viajantes.
Dois navios a menos representam R$ 1,15 bilhão, 20.073 postos de trabalho e 235.232 cruzeiristas a menos em uma única temporada.
Para um setor em que a oferta depende de decisões globais de alocação, manter o Brasil competitivo significa disputar não apenas o viajante, mas também o próprio navio que irá trazê-lo ao país.
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