Em entrevista à Krooze, profissionais do turismo revelam como as experiências em uma famtour influenciam nas recomendações aos seus clientes
Por estagiária Sofia Kuhlmann
Piscinas, restaurantes, teatros, atrações e cabines fazem parte da experiência de um cruzeiro, mas o olhar de um agente de viagem vai além do óbvio. Durante uma Famtour (viagem de familiarização voltada aos profissionais do turismo) cada espaço, serviço e detalhe operacional pode ajudar a identificar para qual perfil de viajante determinado navio é mais indicado.
Em entrevista à Krooze, Alexandre Paparazzo, da Azul Viagens, Vera Figueiredo, da VCP Tur, e Tiago Suzart, da Agaxtur, contaram o que priorizam a bordo, quais experiências costumam ficar de fora das visitas técnicas e como o conhecimento presencial influencia a recomendação de um cruzeiro para seus clientes.

Agentes de viagem observam o navio além das atrações
Em uma famtour, aproveitar o navio não significa apenas participar das atividades oferecidas. O objetivo é compreender toda a jornada que será vivida pelo cliente, desde a chegada ao terminal até o desembarque.
Para Tiago Suzart, o trabalho começa antes mesmo de entrar no navio. O profissional observa o acesso ao porto, a organização do embarque, as áreas públicas, as atividades e a logística de desembarque.
“Temos que aproveitar ao máximo a oportunidade para ampliar o conhecimento sobre a experiência que o nosso cliente terá durante a viagem”, explica.
Esse olhar também passa pela circulação interna. Suzart recomenda percorrer todos os decks, de uma extremidade à outra, observando manutenção, organização, cordialidade da tripulação e fluxo de atendimento em restaurantes, bares, lojas e recepção.
Já Alexandre Paparazzo destaca a importância de relacionar os espaços físicos com as informações disponíveis nos respectivos aplicativos das companhias.
“Conhecer cada espaço do navio onde acontecem as experiências descritas no aplicativo é fundamental. Muitos clientes não conseguem criar sua agenda de bordo por não saber onde e como determinada atração será realizada”, afirma.
Cabines, restaurantes e custos estão entre as principais dúvidas

Embora as atrações chamam atenção, são os aspectos práticos que costumam gerar mais perguntas antes do embarque. Restaurantes incluídos, horários das refeições, bebidas, características das cabines e possíveis despesas extras aparecem entre os pontos considerados indispensáveis pelos agentes.
Paparazzo afirma que conhecer todas as categorias de acomodação, como as áreas privativas, é essencial para oferecer uma opção compatível com o perfil e o orçamento de cada cliente.
Nos restaurantes, as dúvidas são recorrentes. “O cliente sempre pergunta: ‘Onde vou almoçar?’, ‘Tenho hora marcada para o almoço também?’ e ‘Vou ter bebidas nas refeições?’”, conta.
Para Suzart, a análise também deve incluir tomadas, voltagem, secador de cabelo, configuração das camas, banheiro e acessibilidade. Além disso, o agente precisa entender como funcionam os consumos em restaurantes de especialidades, bares, lojas, cassino e spa.
“O segredo está nos pequenos detalhes. A atenção a eles é fundamental para orientar nossos clientes, transmitir segurança e garantir que aproveitem a viagem ao máximo”.
Vera Figueiredo acrescenta que acomodações, gastronomia, entretenimento, excursões e segurança na navegação devem ser avaliados em conjunto. Para ela, conhecer as diferenças entre as companhias permite direcionar cada viajante ao produto mais adequado às suas expectativas.
Quanto tempo é necessário para conhecer um navio?
Os três profissionais concordam que uma visita de poucas horas dificilmente permite compreender todos os aspectos de um navio, especialmente diante do aumento no tamanho das embarcações e da variedade de experiências oferecidas.
Segundo Paparazzo, as visitas técnicas realizadas normalmente entre 10h e 15h não são suficientes para conhecer sequer um terço de alguns navios.
“Uma ou duas noites a bordo tornam as visitas e os treinamentos muito mais proveitosos. Geralmente, o que fica de fora são as áreas privativas ou exclusivas”, avalia.
Na visão de Vera, o tempo necessário varia conforme o tipo de cruzeiro e a proposta da companhia. Tomando como referência um roteiro de sete noites, ela estima que o agente precise de cerca de três dias a bordo para conhecer o produto com maior profundidade.
Suzart apresenta uma estimativa semelhante. Para ele, três a quatro noites permitem compreender a dinâmica da viagem e experimentar boa parte das atividades incluídas. Mesmo assim, spa, restaurantes de especialidades e excursões costumam ficar de fora quando não fazem parte da programação oficial da famtour.
O estilo das atividades revela o perfil do navio
A programação de entretenimento também ajuda os agentes a identificar o público de cada companhia. Navios contemporâneos, com festas até de madrugada, grandes cassinos e muitas atividades na piscina tendem a atrair quem procura uma viagem mais agitada. Certas produções teatrais, apresentações musicais intimistas e ambientes tranquilos, por outro lado, podem ser mais adequados para quem busca outro ritmo.
Para Vera, é necessário analisar tanto os serviços incluídos a bordo quanto as experiências oferecidas nas escalas, além da relação entre tripulantes e hóspedes.
Suzart também chama a atenção para comodidades aparentemente pequenas, como a oferta de toalhas úmidas na piscina ou durante o embarque após um passeio em destinos quentes. Embora discretos, esses serviços ajudam a revelar o padrão de atendimento da companhia.
Paparazzo destaca ainda que algumas experiências ganharam importância depois que ele passou a vivenciá-las. Uma delas foi a gastronomia de especialidades, que, segundo ele, tornaram as suas experiências a bordo muito melhores.
Em família, a programação precisa atender a todos

Quando a viagem é realizada em família, a escolha do navio e do roteiro deve considerar idades, preferências e ritmos distintos. Em vez de manter todos juntos durante toda a programação, a recomendação é combinar atividades coletivas com experiências voltadas a cada integrante.
Paparazzo cita karaokê, jogos de perguntas e respostas e caça ao tesouro como opções capazes de reunir diferentes gerações, dependendo da proposta da companhia.
Vera reforça que a escolha deve começar antes da viagem. Companhia, navio e roteiro precisam oferecer alternativas capazes de atender tanto aos adultos quanto às crianças.
Suzart recomenda acompanhar diariamente o aplicativo ou o jornal de bordo. Para famílias com crianças, os espaços infantis e a presença de monitores capacitados ganham relevância. Para viajantes mais velhos, ambientes tranquilos e atividades de menor intensidade podem ser mais apropriados.
“Existem situações para todos, como o teatro e o jantar. Em outros momentos, cada integrante pode aproveitar uma atividade diferente e depois a família se reúne para conversar sobre o que fez ao longo do dia”, explica.
Gastronomia, shows e serviços vão além das fotos!
Alguns dos aspectos mais marcantes de um cruzeiro são também os mais difíceis de explicar por materiais promocionais. Vera diz que gastronomia e entretenimento estão entre as experiências que mais surpreendem quando o hóspede já está a bordo. Já Paparazzo destaca especialmente os espetáculos.
“Muitos shows são incríveis e impossíveis de descrever em fotos ou palavras. É preciso estar lá e se permitir sorrir e se emocionar”, afirma.

Na avaliação de Suzart, o serviço é o elemento menos traduzível através de imagens. A atenção da tripulação, a cordialidade e a capacidade de antecipar necessidades só podem ser compreendidas completamente durante a viagem.
“Situações em que a tripulação é profissional, cordial, atenta e interessada fazem o cliente se sentir valorizado. Apenas vivenciando tudo isso para entender sua grandiosidade”.
Experiência pessoal traz segurança para a recomendação
Fica claro, então, que uma Famtour não serve apenas para apresentar instalações. Ela permite que o agente compreenda o funcionamento real do navio, reconheça seus diferenciais e identifique possíveis dificuldades antes de recomendar a viagem.
Mesmo em viagens de lazer, os profissionais afirmam manter um olhar atento sobre o produto. A diferença está no ritmo: enquanto a Famtour concentra muitas atividades em pouco tempo, as férias permitem descansar e observar a experiência com mais calma.
“Vivenciar o produto, experimentar tudo o que o navio oferece, conhecer o trabalho de cada membro da tripulação e as experiências a bordo é fundamental para ter propriedade na hora de oferecer um cruzeiro”, resume Paparazzo.
Para Suzart, treinamentos e materiais de divulgação continuam importantes, mas não substituem a experiência presencial.
“Só assim conheceremos os pequenos detalhes que realmente fazem diferença no momento da venda e são fundamentais para o sucesso da viagem, a felicidade e a fidelização do cliente”.
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