Executivo de entretenimento da Celebrity Cruises, brasileiro conta como deixou uma empresa de entretenimento em terra para construir uma carreira a bordo
Por Aline Andrade
A carreira do tripulante Daniel Dornas no setor de cruzeiros começou quase por acaso. Em 2008, enquanto administrava uma empresa de entretenimento no Brasil, ele recebeu um incentivo inesperado da própria mãe para enviar seu currículo a uma seleção para trabalhar a bordo. O convite, que inicialmente parecia distante de sua realidade, acabou levando o profissional a uma trajetória que já soma dezenas de países visitados e passagens por diferentes companhias.

Hoje, Daniel atua na área de entretenimento da Celebrity Cruises, onde é responsável pela programação de atividades e shows a bordo. Também exerce a função de mestre de cerimônias, apresentando eventos, introduzindo artistas e participando diretamente da experiência oferecida aos hóspedes.
Ao longo da carreira, ele acumulou experiências em diferentes segmentos do setor e passou pela Royal Caribbean, onde chegou a atuar como gerente de atividades e diretor. Depois da pandemia, foi escolhido para participar da reabertura de um dos primeiros navios da companhia a retomar as operações.
Na Celebrity Cruises, encontrou uma proposta diferente daquela vivenciada anteriormente, especialmente pela relação mais próxima entre tripulação e hóspedes.
“A experiência do hóspede aqui é mais personalizada. A gente sabe o nome de todo mundo. Pelo fato de não ser tão orientado para família, a gente tem tempo de conversar com as pessoas.”
Uma carreira nos cruzeiros que começou por acaso
Antes de entrar no mundo dos cruzeiros, Daniel atuava na parte de entretenimento. O negócio tinha três anos e exigia que ele cuidasse praticamente de todas as áreas: recursos humanos, financeiro, treinamento, apresentações e coordenação.
A rotina, porém, não correspondia ao estilo de vida que ele imaginava para si. A oportunidade de mudança surgiu quando um de seus estagiários recebeu, pela faculdade, um convite para uma palestra sobre trabalho a bordo. O funcionário descartou o convite, mas a mãe de Daniel viu o papel e decidiu recuperá-lo. Ela telefonou para o filho, que estava em outra cidade, e pediu que ele enviasse o currículo.
Daniel sequer havia visto um navio de cruzeiro pessoalmente. Seu principal contato com esse universo, até então, tinha sido o cinema. Mesmo assim, enviou o currículo. Duas horas depois, recebeu a confirmação de que participaria de uma entrevista em Belo Horizonte. Cerca de 130 pessoas compareceram à seleção para poucas vagas.
Depois de um dia inteiro de entrevistas, testes e conversas em inglês, Daniel recebeu uma ligação inesperada. A recrutadora pediu que ele voltasse no dia seguinte para buscar um material de leitura. A aprovação definitiva viria apenas uma semana depois.
Quando finalmente recebeu a notícia de que havia sido escolhido, Daniel precisou de quatro meses para reorganizar a vida e deixar a empresa que havia construído. Em agosto daquele ano, embarcou pela primeira vez, no Queen Elizabeth 2, da Cunard.
O primeiro embarque e a realização de um sonho
A estreia aconteceu em um cenário que, para ele, parecia cinematográfico. O navio partiu da Inglaterra em um itinerário entre Southampton e Nova York, passando pela Irlanda, uma rota que remetia à história do Titanic.
O início, entretanto, não foi simples. Daniel passou mal e vomitou no primeiro dia de embarque. Ainda assim, tinha um objetivo pessoal: conhecer Nova York. Sem folga inicialmente, recebeu da gerente a possibilidade de desembarcar durante algumas horas caso atingisse uma meta de vendas.
Ele conseguiu.
Foi à Times Square, visitou a loja da Apple e caminhou pelas ruas da cidade. Para Daniel, aquele momento representou a primeira de muitas experiências que viriam com a profissão.
“Eu falei: mãe, se eu conhecer Nova York, eu já posso parar que já está ótimo. Meu sonho era conhecer Nova York.”
Depois daquele primeiro contrato, vieram diferentes itinerários e países. A carreira passou a combinar trabalho, entretenimento e a possibilidade de conhecer destinos que antes estavam distantes de sua realidade.

Do spa ao entretenimento
A primeira função de Daniel a bordo estava relacionada ao spa. A mudança de direção profissional aconteceu quando ele ingressou na Royal Caribbean. Foi nessa companhia que descobriu que o entretenimento poderia se tornar o eixo de sua carreira. A estrutura de programação era maior e permitiu que ele se aproximasse de uma área na qual já tinha experiência anterior.

Daniel atribui parte importante de sua evolução profissional ao brasileiro Léo Papa, que, segundo ele, foi uma referência dentro do setor e ofereceu o coaching necessário para sua evolução.
No contrato seguinte, Daniel já havia sido promovido a gerente de atividades. Permaneceu cerca de dez anos nessa função, assumindo posteriormente responsabilidades de diretor. Depois da pandemia, recebeu da própria companhia a missão de participar da reabertura de um navio, experiência que considera um reconhecimento de seu trabalho anterior.
Mais tarde, recebeu um convite para assumir uma posição de direção em outra companhia. Após quatro anos, veio o contato da Celebrity Cruises, que o encontrou por meio do Instagram. A mudança representou também uma transição para um produto premium.
O trabalho por trás dos shows
Na Celebrity Cruises, Daniel não é apenas o profissional que aparece no palco do cruzeiro. Seu trabalho começa muito antes de o hóspede chegar ao teatro. Como responsável pelo entretenimento, ele participa do planejamento de toda a programação do navio. Isso envolve organizar artistas, shows de produção, música ao vivo, festas e atividades, além de coordenar diferentes equipes.
Atualmente, trabalha com 12 gerentes responsáveis por áreas como atividades, crianças, música, parte técnica, filmagem e elenco.

O planejamento também precisa ser feito com antecedência. Na entrevista, Daniel contou que, mesmo enquanto conversava sobre sua rotina profissional, já havia terminado uma reunião relacionada à programação de Halloween.
“Tem que trabalhar bem à frente do tempo para poder estar com tudo organizado.”
A operação funciona como um grande quebra-cabeça: artistas precisam ser combinados com shows, apresentações precisam conversar com a programação musical e as atividades precisam ser distribuídas ao longo dos dias de navegação e de porto. Além da gestão, Daniel também atua como host do navio, apresenta eventos, faz anúncios e introduz artistas no palco.
Como é viver entre 1.500 tripulantes
A vida a bordo de um cruzeiro envolve uma estrutura própria de hierarquia e acomodação. Segundo Daniel, um navio pode reunir cerca de 1.500 tripulantes e aproximadamente 80 nacionalidades.
A cabine varia conforme a função e a patente ocupada pelo profissional. Tripulantes de determinadas categorias dividem a acomodação com outra pessoa. A partir de posições gerenciais, é possível ter cabine individual.
Como diretor e chefe de departamento, Daniel ocupa uma cabine individual com quarto, sala e banheiro. Ele também explicou que algumas cabines ficam abaixo do nível do mar. A ausência de janelas, porém, não é necessariamente vista como um problema por quem trabalha a bordo.
“A cabine interna tem a vantagem de ser totalmente escura e silenciosa para dormir. É uma maravilha.”
Para ele, a rotina dentro do navio pode até parecer com a de uma cidade ou prédio, apesar de o profissional estar no mar. A estrutura oferece ainda serviços que reduzem parte das tarefas domésticas: camareiro, lavanderia e alimentação estão incluídos na rotina de quem trabalha a bordo.
Até 10 horas de trabalho por dia
A carga horária depende do momento da operação. Em dias de porto, a manhã costuma ser intensa durante o desembarque e a organização das atividades. Depois, há um período em que a programação de entretenimento diminui, permitindo que parte da equipe descanse, vá à academia ou desembarque para conhecer o destino.
A partir do retorno dos hóspedes, por volta das 17h30 ou 18h, a programação volta a ganhar ritmo e segue até aproximadamente meia-noite. Para Daniel, isso representa uma média de 10 horas de trabalho por dia.
Os contratos também variam conforme a posição. Atualmente, ele trabalha aproximadamente quatro meses a bordo e dois meses de folga. Quanto maior a posição hierárquica, segundo ele, menor tende a ser a duração do contrato.
O que muda em relação ao trabalho em terra
Uma das diferenças apontadas por Daniel está na possibilidade de economizar uma parcela maior da renda enquanto está embarcado. Ele estima que um tripulante de cruzeiro consiga guardar, dependendo de sua realidade, algo entre 60% e 70% do salário durante o período a bordo.
A explicação está na redução de despesas do cotidiano. Alimentação, acomodação e outras necessidades deixam de representar gastos equivalentes aos de quem vive em terra.
“Enquanto no Brasil hoje, sei lá, se alguém consegue poupar 15% ou 20% do salário, aqui a gente consegue poupar 70%.”
A própria estrutura do navio também contribui para esse modelo de vida. Daniel conta que não precisa cozinhar, fazer supermercado, limpar a cabine ou cuidar da própria lavanderia durante o período embarcado.
Egito foi a experiência que mais o surpreendeu
Depois de visitar 68 países, Daniel aponta o Egito como o destino que mais superou suas expectativas. A experiência aconteceu ainda em seu primeiro contrato e incluiu uma excursão às pirâmides, entrada em uma delas, visita à Esfinge, passeio de camelo e navegação pelo rio Nilo.

A experiência ganhou um significado especial porque Daniel sempre teve interesse por história. Antes mesmo de trabalhar em navios, havia se emocionado ao conhecer o Coliseu, na Itália. Para ele, alguns dos grandes pontos turísticos do mundo carregam uma atmosfera difícil de explicar.
“Eu sempre gostei muito de história. Quando eu conheci o Coliseu, em 2004, eu chorei porque falei: cara, é o livro de história aqui na minha fuça.”
Entre os lugares que ainda gostaria de conhecer está o Taj Mahal. Dubai também marcou sua trajetória, especialmente por ter passado alguns dias na cidade durante o processo de aposentadoria de um navio.
A possibilidade de um futuro diferente
Apesar de ainda trabalhar embarcado, o tripulante admite que o futuro pode trazer mudanças. O casamento recente o fez pensar sobre a possibilidade de, algum dia, deixar a vida a bordo. Por enquanto, entretanto, a combinação entre carreira, viagens, economia e conveniência mantém o trabalho no mar como uma opção atraente.
Ele também identifica uma possibilidade de futuro dentro do próprio mercado de cruzeiros: os navios fluviais. A expansão da Celebrity Cruises para esse segmento chamou sua atenção pela proposta voltada à exploração dos destinos.

A possibilidade de navegar por rios e permanecer mais próximo das cidades, segundo Daniel, representa uma experiência diferente daquela oferecida pelos grandes navios marítimos.
O conselho para quem quer trabalhar em um navio
Depois de quase duas décadas de carreira no setor, Daniel não recomenda que alguém escolha a profissão apenas pela possibilidade de viajar. Para ele, o primeiro passo é entender exatamente qual será a função desempenhada a bordo. Um profissional deve buscar uma posição relacionada à sua experiência e, principalmente, a algo de que goste.
“Eu recomendo a pessoa realmente se informar bastante sobre o trabalho que ela vai fazer a bordo e que ela venha fazer um trabalho que ela goste de fazer.”
O segundo ponto, na visão do tripulante, é o autoconhecimento. A distância da família, a rotina intensa e a necessidade de adaptação fazem com que o tripulante precise desenvolver autonomia.
No navio, afirma Daniel, não há a mesma facilidade de simplesmente abandonar um trabalho. Antes de embarcar, o profissional já investiu em documentação, exames médicos, cursos de segurança, viagem e, muitas vezes, aprendizado de outro idioma.
Por isso, a experiência pode ser também uma forma de descobrir capacidades que o profissional desconhecia.
“Você se descobre mais forte a cada dia. Então eu super recomendo como oportunidade de trabalho e como autoconhecimento.”

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