Ana Melo, da revista Melhor Viagem 60+, fala sobre autonomia, luxo, expedição e novas escolhas no mar
Por Redação Krooze
O viajante 60+ está longe de ser um público único, previsível ou preso a antigos estereótipos. No mercado de cruzeiros, esse consumidor vem ganhando cada vez mais relevância justamente por unir algo que poucos formatos de viagem conseguem entregar tão bem: conforto, liberdade, segurança e a possibilidade de conhecer vários destinos sem enfrentar tantos deslocamentos.
Em entrevista à Krooze, Ana Melo, CEO do Expo Fórum de Turismo 60+ e da Revista Melhor Viagem 60+, afirmou que o primeiro passo para entender esse público é abandonar visões simplistas.
“Precisamos fugir de dois extremos: nem romantizar o 60+ como se fosse uma geração sem limitações, nem continuar tratando esse consumidor como sinônimo de fragilidade, aposentadoria e viagem passiva”.
Segundo Ana, o viajante maduro de hoje compara, pesquisa, questiona e sabe o que quer. Ele não aceita mais qualquer pacote pronto apenas porque chegou a determinada idade.
O cruzeiro como viagem sem esforço excessivo

O cruzeiro tem um diferencial importante para o viajante 60+: ele permite conhecer vários lugares sem transformar a viagem em uma sequência cansativa de malas, hotéis, aeroportos e transfers. Essa característica torna o produto atrativo não apenas para quem tem alguma limitação física, mas também para qualquer pessoa que valorize conforto, praticidade e organização.
“O cruzeiro consegue retirar parte do esforço da viagem sem retirar necessariamente a experiência da viagem”, diz Ana.
Na prática, isso significa que o viajante pode visitar diferentes destinos, aproveitar restaurantes, entretenimento, excursões, atividades a bordo e momentos de descanso sem lidar com a logística pesada de uma viagem terrestre por várias cidades.
Não existe um único perfil de viajante 60+
Um dos pontos centrais da entrevista é que falar em “público 60+” como se fosse um bloco único é um erro.
Ana lembra que há diferenças enormes entre alguém de 60, 70 ou 80 anos. Há pessoas com mais de 80 anos que têm grande autonomia e viajantes de 62 que podem ter limitações importantes, depende sempre da pessoa. Por isso, idade não deve ser o único critério para pensar produtos turísticos.
“Idade é uma informação. Não é uma descrição completa desse consumidor”, afirma.
Segundo ela, o mercado deveria olhar mais para o momento de vida, independência, renda, repertório de viagem, mobilidade, companhia e motivação.
Luxo e expedição também participam da conversa

A ideia de que o viajante mais velho procura apenas descanso, boa comida e programação tranquila já não acompanha a diversidade desse público.
“Uma pessoa não completa 60 anos e, no dia seguinte, começa subitamente a gostar de bingo”, diz Ana de forma cômica.
Para ela, o crescimento dos segmentos de luxo e expedição mostra que há diferentes formas de envelhecer viajando. Muitos viajantes maduros querem conforto, sim, mas também querem novidades, cultura, natureza, aventura e experiências com significado.
Isso ajuda a explicar o interesse crescente especificamente por cruzeiros de expedição, pequenos navios, roteiros mais imersivos, cheios de excursões, destinos menos óbvios e viagens que combinam intensidade em terra com conforto a bordo.
“O viajante pode viver uma aventura durante o dia e voltar para um bom jantar, uma cabine confortável e uma estrutura segura à noite”, explica Ana.
Viagens multigeracionais ganham cada vez mais força
Outro ponto em que os cruzeiros se destacam é a possibilidade de reunir diferentes gerações na mesma viagem sem obrigar todos a fazerem as mesmas atividades o tempo inteiro. Em um navio, avós, filhos e netos podem tomar café juntos, seguir para experiências diferentes durante o dia e se reencontrar no jantar ou em um espetáculo à noite.

Para Ana, essa flexibilidade é uma das grandes vantagens do produto: “Dentro de um cruzeiro, cada um pode fazer uma atividade diferente e depois todos se encontram. Essas comodidades fazem com que o cruzeiro englobe essa convivência multigeracional”.
Autonomia é palavra-chave

Uma pesquisa sobre o perfil do viajante 60+ no Brasil, apresentada no Fórum de Turismo 60+, mostra que a autonomia é um dos valores mais importantes para esse público. O estudo aponta que muitos viajantes maduros enxergam a viagem como uma forma de manter independência, bem-estar e protagonismo. Ana reforça que isso também vale para os cruzeiros. Para ela, a assistência deve estar disponível, mas nunca ser presumida.
Ela dá um exemplo simples: em vez de dizer ao viajante para seguir diretamente pelo elevador, a equipe pode apresentar as opções disponíveis e deixar que ele escolha.
“Não decida pelo viajante. Dê condições para que ele decida. O melhor cuidado é aquele que aumenta a autonomia, e não aquele que a substitui”, completa.
O desafio das companhias de cruzeiro
O setor de cruzeiros já evoluiu ao diversificar produtos, navios, roteiros e experiências. Ainda assim, Ana acredita que nem sempre essa evolução nasce de uma reflexão específica sobre longevidade.
“Eu nem penso que deve existir um navio para idosos. O produto mais interessante é aquele capaz de acompanhar a longevidade das pessoas de forma natural”, afirma.
Isso significa pensar em navios, terminais, excursões, atendimento e comunicação para diferentes graus personalidades e estilos de vida, sem transformar o 60+ em uma caricatura. Na prática, o desafio é claro: não vender o cruzeiro para esse público como uma viagem passiva, mas como uma experiência de escolha.
Uma nova forma de olhar para o envelhecimento no turismo
A pesquisa Turismo 60+ Brasil mostra que viajar está ligado a prazer, leveza, liberdade, vínculos, bem-estar e realização pessoal. O viajante maduro não quer que retirem a intensidade da viagem. Quer que retirem o atrito. Menos fila desnecessária, menos informação confusa, menos transfers mal organizados, menos comunicação infantilizada e mais clareza, conforto, acessibilidade, escolha e experiência.
Para Ana, essa mudança será ainda mais forte nos próximos anos. “Daqui a dez anos, provavelmente falaremos muito menos sobre turismo para idosos e muito mais sobre turismo para uma sociedade longeva”.
No mercado de cruzeiros, essa transformação já começou. E talvez o grande aprendizado seja justamente este: o viajante 60+ não quer ser colocado em uma categoria menor. Ele quer continuar descobrindo o mundo, só que com muito mais critério, independência e consciência sobre o valor do próprio tempo.
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