De um escritório de seis pessoas e navios de 850 hóspedes à chegada dos meganavios, Marcia mudou a história da MSC Cruzeiros No Brasil
Por Aline Andrade
Quando Márcia Leite começou a trabalhar com a MSC Cruzeiros, em 1997, a companhia ainda dava os primeiros passos no mercado brasileiro. O cenário era muito diferente do atual com navios menores, infraestrutura portuária limitada e fazer um cruzeiro ainda carregava no imaginário do público a ideia de uma experiência restrita a poucos.
Três décadas depois, Márcia olha para trás e reconhece uma trajetória diretamente ligada à transformação do setor no país. Da organização da primeira temporada de um navio de 850 hóspedes à operação de meganavios, passando pela implantação do escritório próprio da MSC no Brasil, pela chegada do MSC Fantasia e pelos desafios sem precedentes impostos pela pandemia, sua história se confunde com parte importante da evolução da companhia no mercado brasileiro.

“Eu nunca fiz nada que não fosse turismo na minha vida. Minha vida toda eu trabalhei com turismo. Trabalhei em agência, tive agência de viagens. Durante a minha vida toda, a única coisa que eu fiz foi turismo”, conta.
Foi justamente essa experiência que a levou à MSC. Em 1997, Márcia foi convidada por um antigo amigo, representante da companhia no Brasil, para participar da organização da temporada do MSC Rhapsody, que viria ao país naquele período.
Na época, o navio tinha capacidade para um pouco mais de 800 hóspedes, um número expressivo para os padrões daquele momento. Márcia permaneceu por cinco anos trabalhando com a representação, até receber da própria companhia o convite para um novo desafio: estruturar o escritório da MSC no Brasil.

Quando a MSC Cruzeiros ainda dava os primeiros passos
Em 1997, a MSC Cruzeiros tinha apenas três navios: MSC Monterey, MSC Rhapsody e MSC Melody. O maior deles comportava aproximadamente 1.400 viajantes.
“Eu comecei realmente quando a companhia estava engatinhando ainda”, relembra.


A estrutura brasileira também era pequena. Quando iniciou sua trajetória, Márcia Leite fazia parte de uma equipe de apenas seis pessoas. Com uma operação enxuta, as responsabilidades eram amplas. “Eu era responsável por tudo: pelas vendas, pelo marketing, pela operação do navio, por tudo. Era uma operação e um escritório muito enxutos.”
A relação com a sede da companhia, naquele período localizada em Nápoles, também fazia parte da rotina. O Brasil ainda era um mercado em desenvolvimento para a MSC, mas já havia uma percepção de que existia espaço para crescer. O desafio, porém, ia muito além de vender cabines.
Naquele período, o setor de cruzeiros ainda era bastante restrito no Brasil e a infraestrutura portuária estava longe da realidade atual. Em Santos, por exemplo, os navios operavam em um armazém de cargas, já que ainda não existia um terminal de passageiros estruturado como os atuais.
“Era um segmento muito restrito. As pessoas ainda tinham aquela imagem de cruzeiro de glamour e de que era só para ricos. Toda a parte operacional era um grande desafio, pois não havia infraestrutura no Porto de Santos. Não tinha um terminal para quem fosse embarcar. Nós operávamos no Armazém 13, que era um armazém totalmente de cargas.”
Ao mesmo tempo em que enfrentava limitações, a MSC enxergava no Brasil um mercado com potencial. “Durante esses anos em que trabalhei através da representante, sempre veio esse navio, o Rhapsody, que foi de grande sucesso no país. Era um navio muito querido. Ninguém tinha ideia de quem era a MSC, mas todo mundo sabia quem era o navio Rhapsody.”
A lembrança ajuda a dimensionar como a relação do brasileiro com as marcas de cruzeiros começou, muitas vezes, pelos próprios navios.

A construção de uma operação brasileira
Em 2002, a MSC Cruzeiros decidiu estabelecer um escritório próprio no país e convidou a executiva para participar da implantação. Ela aceitou o desafio com uma condição; levar consigo a equipe que já trabalhava com ela.
“Minha única exigência foi que eu pudesse trazer a minha equipe que já trabalhava comigo para poder implantar esse escritório no Brasil.”

A estrutura inicial tinha duas diretoras. Enquanto uma ficava responsável pela área comercial e de marketing, Márcia assumia o restante da operação. “Eu cuidava de todo o restante: a parte operacional, a parte administrativa, a parte das reservas e tudo mais.”
A atuação também envolvia uma tarefa fundamental para qualquer companhia de cruzeiros: entender quais destinos e portos poderiam fazer parte dos itinerários. Antes que um roteiro seja definido, há uma série de fatores a serem avaliados. Infraestrutura, profundidade, segurança, capacidade operacional e, principalmente, o que o destino oferece ao passageiro entram nessa equação.
“Antes de se fazer um roteiro, um itinerário, existe uma série de pesquisas que têm que ser feitas. A gente analisava o destino, se ele tinha infraestrutura para receber o navio, se tinha apelo turístico. Não adianta ter um belo porto, um belo destino, se não tem apelo turístico.”
A análise também precisava considerar a diferença entre um porto de escala e um porto de embarque. “Quando é um porto de atracação, a gente tem que incluir se esse porto é estratégico. É preciso saber se naquela região existe uma demanda de venda.”
Santos é um exemplo. Embora a cidade não tenha, na avaliação dela, o mesmo apelo turístico de outros destinos brasileiros, sua localização e conexão com o principal mercado consumidor do país tornam o porto estratégico para embarques.
O trabalho também envolvia avaliar propostas apresentadas pelos próprios destinos.
“Os destinos procuravam o armador. Ilhabela, por exemplo, o próprio prefeito, a Secretaria de Turismo. Todos já procuravam o armador: ‘Parem aqui, venham para cá, nós podemos melhorar a nossa infraestrutura, oferecemos uma infraestrutura adequada para que os viajantes desembarquem’.”
Essas informações eram reunidas e encaminhadas à companhia para análise. O conhecimento local, segundo Márcia, era fundamental para a tomada de decisão. “Para eles é muito difícil, eles não conhecem. Realmente, a decisão final nunca é deles, porque quem está no país é que sabe, que conhece as dificuldades e tudo mais.”
O navio que mudou o jogo
Se existe um momento que Márcia identifica como uma verdadeira virada de chave na história da MSC no Brasil, é a chegada do MSC Fantasia. O navio representava uma nova escala para o mercado brasileiro. Até então, o país não havia recebido uma embarcação daquele porte, e a operação gerava dúvidas entre diferentes agentes do setor.
“O que realmente virou a chave e foi uma quebra de paradigma para o Brasil, para o mercado brasileiro, foi a vinda do MSC Fantasia.”

As perguntas eram muitas: o navio conseguiria entrar nos portos brasileiros? Haveria infraestrutura para recebê-lo? A operação seria viável?
Márcia se lembra de uma conversa com Pierfrancesco Vago, hoje presidente executivo da MSC Cruises. “Quando foi para esse navio vir para o Brasil, o nosso CEO na época, o senhor Pierfrancesco Vago, olhou para mim e disse:
— ‘Você realmente tem coragem de receber esse navio no país? Você acha que dá conta?’.
E eu disse: ‘Pode vir, que nós daremos conta’.”
O desafio acabou se tornando um marco.
“A vinda do MSC Fantasia realmente foi o maior desafio, porque até então nós não havíamos recebido na costa brasileira um navio desse tamanho, dessas dimensões. Foi um momento de grande expectativa no país.”
Mais do que colocar um novo navio na costa brasileira, a chegada do navio ajudou a acelerar mudanças na própria infraestrutura.
“Foi a partir dele que o Brasil acordou um pouco para esse novo mercado, para essa nova classe de navios que passariam a navegar no Brasil. Os terminais começaram a se adequar, os portos começaram a se adequar, tiveram várias melhorias nos portos em todos os sentidos.”
Por trás da experiência do cruzeirista
Para Márcia, a experiência de um cruzeiro começa muito antes de o passageiro subir a bordo. A operação envolve vendas, reservas, atendimento, logística, check-in, portos, autoridades, fornecedores e tripulação. Tudo precisa funcionar de maneira coordenada.
“A logística, como você pode imaginar, toda a operação de um navio de viajantes é extremamente complexa e tem que ser pensada nos mínimos detalhes.”
Até o horário de chegada ao terminal faz parte desse planejamento. Os embarques são organizados em diferentes horários para evitar que milhares de pessoas cheguem simultaneamente. “O momento do embarque é realmente um ponto crucial para que o hóspede não saia e não entre a bordo já estressado.”
Existe, entretanto, um elemento que não pode ser totalmente controlado: a ansiedade do próprio viajante.
“Principalmente no Brasil, todos ficam extremamente ansiosos e acabam chegando muito antes. Você marca às três, ele chega às nove da manhã.”
A preocupação em reduzir esse impacto, segundo ela, é compartilhada pelas companhias, especialmente diante do crescimento do tamanho dos navios.
De uma viagem de luxo a uma experiência para toda a família
Ao longo das quase três décadas em que acompanhou o mercado, Márcia também testemunhou uma mudança significativa no perfil do hóspede. A popularização dos cruzeiros ampliou o acesso à experiência e modificou a relação do público com esse tipo de viagem.
“O segmento se popularizou muito. Hoje existe uma oferta muito maior de cabines, mais pessoas tiveram acesso, mais pessoas puderam ter essa experiência. Muitos sonhos foram realizados com essa popularização.”
Para ela, a percepção do que significa fazer um cruzeiro também mudou. “Na época em que eu comecei, há 30 anos, ainda se falava em glamour nos navios. Hoje em dia, a experiência que o hóspede procura é aquela em que ele possa relaxar e se sentir em casa.”
A proposta de reunir hospedagem, transporte, alimentação e entretenimento em uma mesma viagem também contribuiu para essa transformação. “Hoje o hóspede busca tranquilidade. Ele vai para o navio porque tem tudo: transporte, hospedagem, entretenimento. Ele tem a facilidade de estar com a família ali, sem preocupação.”
A pandemia: o maior desafio profissional
Se a chegada do MSC Fantasia foi um dos maiores desafios relacionados à infraestrutura, a pandemia de Covid-19 representou o momento profissional mais difícil de sua trajetória. Quando a crise sanitária começou, a MSC tinha quatro navios no Brasil. A temporada ainda estava em andamento quando veio a determinação para interromper as operações.
“Quando chegou a pandemia, a MSC estava com quatro navios no Brasil. Eu estava inclusive a bordo de um dos navios e veio a ordem de Genebra de que deveríamos parar os navios todos e desembarcar todos os hóspedes.”
O encerramento das operações criou um problema de proporções inéditas: como levar milhares de tripulantes de diferentes nacionalidades de volta para seus países em um momento em que fronteiras estavam sendo fechadas?
“Se você calcular uma média de 1.200 hóspedes por navio, nós ficamos com quase 5 mil tripulantes a bordo. Eram tripulantes de 42 nacionalidades que nós deveríamos mandar para casa.”
A operação exigiu articulação com embaixadas, Itamaraty e diferentes autoridades.
“Nós falávamos todos os dias com embaixadas, com o Itamaraty. Fretamos diversos aviões para levar esses tripulantes.” Os voos tinham ainda uma segunda função: trazer brasileiros que estavam no exterior e precisavam retornar ao país.
“O avião que levava os tripulantes trazia de volta os brasileiros que estavam lá também, que estavam em viagem, que ficaram e que entraram em contato com as embaixadas e com o Itamaraty.”
Para alguns tripulantes, o retorno demorou meses. “Muitos acabaram ficando aqui por cinco meses porque os países deles fecharam.”

Além de lidar com pessoas de diferentes nacionalidades e autoridades de vários países, era necessário encontrar soluções para os próprios navios, que permaneceram parados durante a interrupção das operações. “Foi um grande desafio, um enorme desafio, um trabalho muito grande junto com todas as autoridades.”
O momento de passar o bastão
Depois de tantos anos, a decisão de deixar a operação da MSC não aconteceu de forma repentina. Márcia brinca que teve “o maior aviso prévio” de sua carreira.
“Eu chego a brincar que o meu aviso prévio foi o maior aviso prévio que eu já vi: foi um ano de aviso prévio.”
Durante esse período, ela participou da transição e preparou a sucessão. Para explicar o sentimento de deixar uma empresa que ajudou a construir desde o início, ela recorre a uma comparação familiar.
“Eu sempre digo que a gente faz um desmame. Depois de passar tantos anos ali, de ter começado a companhia no Brasil, é como um filho que você vai deixando. Chega um momento em que o filho tem que seguir sozinho.”
A decisão também foi motivada por uma vontade pessoal de dedicar mais tempo à família. “Eu queria fazer outras coisas, queria descansar, queria me dedicar mais à minha família, ao meu filho, que praticamente nasceu a bordo do navio.”
E há uma reflexão que ganhou peso com o passar dos anos.
“Muitas vezes você deixa o tempo passar e, quando vê, passou e você perdeu muitas coisas com a sua família. Então achei que era o momento certo para fazer isso.”
Após sua saída da operação, a MSC ainda a convidou para permanecer como consultora. Durante esse período, Márcia atuou principalmente na área de relações governamentais e também prestava apoio em questões operacionais, aproveitando o relacionamento construído ao longo de décadas com autoridades e diferentes agentes do setor.
Depois, decidiu seguir novos caminhos.
Um ano sabático — a bordo.
Em 2026, Márcia decidiu fazer uma pausa. Mas, para alguém que passou praticamente a vida profissional dentro do universo dos cruzeiros, até o ano sabático seria realizado sobre as águas.
Ela embarca em outubro para uma viagem de volta ao mundo de aproximadamente três meses, toda realizada a bordo de navios, passando por 14 países e 54 destinos.
“Eu resolvi que 2026 seria meu ano sabático, mesmo porque esse ano eu resolvi fazer uma volta ao mundo. Serão três meses de viagens. Vou fazer uma viagem de três meses de volta ao mundo, tudo de navio.”
A viagem também representa uma oportunidade que o trabalho, por muitos anos, não permitia. “Quando você está trabalhando, também é difícil se ausentar por tanto tempo do trabalho. Então eu tinha que aproveitar esse ano sabático.”
Mais do que turismo, a jornada terá também um significado familiar. Márcia viajará acompanhada do filho. “Eu acho que vai ser uma viagem, um momento importante, inclusive, para mãe e filho.”
O que é preciso para trabalhar com o sonho dos outros
Depois de quase três décadas em uma indústria marcada por operações complexas e imprevistos, Márcia acredita que algumas características são indispensáveis para quem deseja construir uma carreira sólida no setor.
A primeira delas é organização.
“Você trabalha com o sonho das pessoas. Você não pode frustrar esses sonhos. Você não tem o direito de frustrar esses sonhos.”
A operação exige planejamento além do necessário. “Eu brincava sempre na operação que dizia: vocês têm que estar preparados 120% para ter 80%. Não prepare 100%; prepare mais para que vocês possam ter 80%.”
Resiliência, paciência e capacidade de lidar com diferentes públicos também são fundamentais. “Você precisa ser resiliente, precisa ter muita paciência, muito senso de como lidar com situações difíceis, porque elas aparecem todos os dias.”
E existe ainda uma característica que, para ela, não pode ser negociada: o respeito.
Na operação de um navio, diferentes autoridades e prestadores de serviço fazem parte da rotina, da Receita Federal à Polícia Federal e à Anvisa. “Você tem que saber lidar com cada um deles com a mesma atenção, o mesmo respeito e a mesma responsabilidade.”
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