Fotógrafa que já percorreu os sete continentes e acaba de completar seu 30º cruzeiro, fala sobre expedições à Antártica e ao Ártico, natureza e muito mais!
Por Aline Andrade
Desde muito jovem, Marina Bandeira Klink encontrou nas atividades ao ar livre uma forma de se aproximar da natureza. Vela, voo livre, equitação e mergulho autônomo fizeram parte de sua trajetória e ajudaram a construir o olhar que, mais tarde, seria transformado em fotografia. Ao longo de mais de uma década, ela realizou expedições pelos sete continentes, passando por destinos remotos como o Ártico, o Sudoeste Africano, a Índia, a Antártica e diferentes regiões da América do Sul.

A fotografia tornou-se a maneira encontrada por Marina para compartilhar essas experiências e, ao mesmo tempo, ampliar a discussão sobre conservação e sustentabilidade. Seu trabalho reúne registros de animais, paisagens e comunidades visitadas durante as viagens. Já ilustrou jornais, revistas, sites, livros didáticos, e participou de exposições culturais e galerias de arte. Ela também é autora dos livros fotográficos Antártica, A Última Fronteira, Olhar Nômade e Contravento, além de ter publicado livros infanto-juvenis.
A experiência acumulada em suas viagens também se transformou em palestras, nas quais Marina apresenta imagens captadas ao longo de mais de dez anos de expedições e estabelece relações entre aquilo que aprendeu em lugares remotos e situações do cotidiano. As apresentações abordam conservação e sustentabilidade e procuram estimular o público a refletir sobre mudanças, escolhas e a busca pelos próprios sonhos.
Em entrevista, Marina falou sobre as diferentes formas de vivenciar uma expedição, a transformação do turismo de natureza, o crescimento dos cruzeiros de expedição, a evolução dos navios, o contato com a vida selvagem e a responsabilidade ambiental de quem visita regiões remotas.


Entre tripulação e hóspede: duas formas de viver a Antártica
Marina já esteve na Antártica tanto como tripulante quanto como viajante. Para ela, as duas experiências apresentam diferenças importantes, principalmente em relação à responsabilidade e à maneira como a viagem é percebida.
“Quando você vai como tripulante, você é responsável pelo comando e pelas tomadas de decisão. Num ambiente hostil como a Antártica, estar nessa posição é bastante complexo e demanda muita responsabilidade, principalmente quando transporta crianças pequenas a bordo”, explica.
Já como hóspede, a relação é diferente. “Ir para a Antártica como viajante é uma viagem de prazer, onde a gente se sente acolhida pela empresa que foi escolhida por nós.”


A experiência também reforçou, para Marina, a importância de conhecer a empresa responsável pela operação antes de embarcar. “Por isso, é sempre importante conhecer toda a operação e quem é a empresa que estará nos transportando. E só viajar com empresas de muita credibilidade e confiança.”
Um continente que nunca se repete
Depois de mais de uma década viajando para a Antártica com aproximadamente 20 visitas ao continente, Marina afirma que o destino continua sendo capaz de surpreendê-la. A explicação está justamente na característica dinâmica daquele ambiente.
“A Antártica é um ambiente inusitado, porque como o destino de natureza, ele nunca se repete. Cada dia na Antártica é uma nova experiência”, afirma. Outro fator é a própria fauna. Segundo Marina, os animais encontrados na região não permanecem necessariamente no mesmo local. “Principalmente considerando que a fauna que existe ali, ela não mora ali, é uma fauna basicamente migratória.”
Por isso, mesmo retornando ao mesmo destino diversas vezes, o cenário nunca é exatamente igual. “Mesmo que você vá 20 vezes, como é o meu caso, para o mesmo destino, ele nunca vai estar como esteve das vezes anteriores.”

Entre tantas experiências, uma permanece especialmente marcada em sua memória: o primeiro encontro com uma baleia-jubarte. “Eu diria que a experiência mais marcante a bordo de um navio de expedição foi em 1994 quando, pela primeira vez, vi uma baleia jubarte. Você vê de perto um grande cetáceo, é sem dúvida uma experiência inesquecível.”
Expedição é diferente de um cruzeiro tradicional
Para Klink, uma das principais diferenças entre uma viagem de expedição e um cruzeiro tradicional está na imprevisibilidade. Em uma expedição, existe um planejamento, mas as condições encontradas no destino podem modificar o que acontece ao longo do dia.
“O que diferencia uma viagem de expedição de um cruzeiro tradicional é o ineditismo, a imprevisibilidade”, define. As atividades podem ser alteradas ou novas experiências podem surgir de acordo com as condições encontradas. “Você está sempre aberto a novas experiências, mesmo quando não estão previstas, já que muitas delas se revelam oportunidades imperdíveis.”
Essa característica também exige uma postura diferente do viajante. “Você se entrega muito mais de corpo e de alma para uma expedição do que um cruzeiro tradicional”, declara.
Isso não significa que não exista programação. Há uma definição prévia do que se pretende fazer, mas o resultado final permanece sujeito às circunstâncias. “A viagem de expedição é uma viagem onde você tem previamente uma definição do que vai acontecer, mas a gente nunca sabe, na realidade, como isso será.”
Segundo Marina, justamente essa combinação entre planejamento e imprevisibilidade ajuda a explicar por que o viajante permanece interessado em retornar. “É isso que faz com que a gente nunca se sinta satisfeito e queira sempre voltar. Ela conta muito mais com o seu espírito de aventura e de estar dedicada para aquela viagem do que uma viagem onde tudo acontece de acordo com a programação do relógio de um cruzeiro tradicional.”
O que o viajante imagina encontrar na Antártica?
Quando alguém pensa em uma viagem para a Antártica, os pinguins costumam aparecer entre as primeiras imagens associadas ao destino. Marina reconhece esse imaginário, mas explica que a experiência real é muito maior.
“Quem vai para a Antártica imagina encontrar pinguins, que eu acho que é o principal elemento que a gente imagina.”
Segundo ela, existe uma dimensão lúdica associada ao continente. “Muito no inconsciente da gente, o lúdico leva a gente para a Antártica para ver pinguim, mas quando a gente chega lá, a gente percebe a real dimensão.”
A escala das paisagens e das experiências modifica essa percepção. “Tudo tem uma proporção muito maior do que a gente imagina e, no final, os pinguins são um detalhe bem significativo, mas é um pequeno detalhe num todo muito maior que é uma viagem como essa.”
O resultado é uma relação mais profunda com o destino. “São muitas as experiências, muitas as vivências, muitos aprendizados e no final a gente percebe que a gente entra num continente com muito mais profundidade do que a gente poderia imaginar.”
No Amazonas, a paisagem passa a fazer parte da viagem
A relação entre viajante e natureza também aparece na experiência de Marina com cruzeiros pelo Amazonas. Para ela, navegar pelo rio proporciona uma imersão diferente daquela encontrada em uma hospedagem tradicional.
“Cruzeiro pelo Amazonas significa que você está navegando por um rio de uma grande dimensão, você já está imerso na natureza”, afirma.
A proximidade começa nos sentidos. “Você respira a natureza da hora que você olha pela janela, na hora que você sente o vento no rosto, ouve o barulho da água e você tem o canto dos pássaros muito próximo.”

A navegação também permite observar animais, comunidades e atividades que fazem parte da rotina da região. “Você consegue visualizar os animais que vêm beber água no rio, você tem muito mais contato com as comunidades ribeirinhas, você vê as embarcações passando, você vê a pesca, você vê as comunidades, faz com que você sinta parte daquela paisagem.”
Em sua avaliação, essa é uma das diferenças em relação a ficar em um hotel. “Num hotel tradicional, onde você tem ar-condicionado, uma televisão e a internet, você acaba se dispersando daquele lugar onde você está e não tem esse contato tão intenso quanto quando você está num barco navegando pela região.”

Um mercado que passou a buscar experiências
Ao acompanhar a evolução do setor de cruzeiros e do segmento de expedição, Marina percebe uma mudança tanto na oferta das empresas quanto no perfil do público.
“Posso dizer que houve uma profissionalização nesse universo. A gente percebe uma demanda crescente de um público cada vez mais interessado em viver experiências verdadeiras.”

Segundo ela, no início do desenvolvimento dos cruzeiros de expedição, a motivação estava mais concentrada em conhecer o destino. Hoje, a experiência em si ganhou espaço.
“No início dessa história de cruzeiros de expedição, ninguém estava realmente interessado em viver a experiência, mas somente em ver o lugar. E hoje eu percebo o quanto as empresas se adaptaram para o inesperado e o quanto os próprios hóspedes, que são os cruzeiristas, estão abertos para esse tipo de vivência.”
Essa transformação também aparece nos produtos oferecidos pelos navios. A fotógrafa observa que as empresas passaram a criar atividades que levam os hóspedes para uma relação mais direta com o ambiente visitado.
“Nos dias atuais, há cruzeiros que não apenas passam pelos destinos, mas proporcionam experiências diferenciadas, como passeios de bote, mergulho assistido, voos de helicóptero, acampamentos na natureza e trilhas mais ousadas.
Existe uma busca crescente por experiências que não se limitem à observação. “Eu percebo o quanto as empresas estão tentando se adaptar para oferecer mais e mais alternativas para esse mercado crescente que busca viver o inédito.”
Conforto, segurança e aventura
A evolução dos navios também trouxe mais sofisticação e conforto às viagens de expedição. Para Marina Klink, entretanto, isso não significa necessariamente afastamento da essência da exploração.
“Os navios estão, sim, ficando mais sofisticados, estão mais confortáveis. Eles estão adequando seus equipamentos, todos para atender essa busca da aventura.” Ela ressalta, porém, que é necessário diferenciar aventura de uma experiência de natureza realizada com estrutura e segurança. “Não se deve denominar aventura, que, quando na verdade, não é bem uma aventura, mas é uma experiência.”
Para explicar a diferença, Marina utiliza um exemplo: “Aventura é você colocar o hóspede para dormir do lado de fora do navio, em cima de um sleeping bag sem um isolante térmico.”
Na avaliação dela, o setor passou a oferecer atividades externas mantendo equipamentos e protocolos de segurança. “As empresas estão se adequando e colocando os equipamentos de segurança necessários para oferecer aquela vivência com segurança.”
O acampamento fora do navio é um exemplo. “Existe você poder acampar fora? Sim, existe. Só que com todo o equipamento já moderno e disponível para todo mundo, com uma margem de segurança maior.”
O mesmo ocorre em atividades aquáticas. “Tem o stand-up, mas tem um bote atrás, seguindo, acompanhando cada viajante.”
Na opinião de Marina, essa combinação mostra como o turismo de expedição vem ampliando suas possibilidades sem abandonar a preocupação com a segurança. “O turismo está se adequando, está oferecendo mais opções e, cada vez, o serviço está com mais segurança do que antes.”
O viajante como um possível embaixador da conservação
A expansão do turismo de expedição também pode ter impacto na conscientização ambiental. Marina acredita que a experiência direta com destinos remotos transforma a maneira como as pessoas compreendem esses lugares. “Uma pessoa que vai para a Antártica, vai em busca de um pinguim, por exemplo, mas ela volta da Antártica sabendo muito sobre aquele lugar.”
O conhecimento adquirido durante a viagem não termina quando o navio retorna ao porto de desembarque. “Cada cruzeirista que vai para um destino remoto, hoje em dia, volta como um pequeno embaixador, divulgador de tudo que ele aprendeu naquela viagem.”
E resume esse papel em uma metáfora: “Eu tenho certeza de que cada hóspede é uma pequena célula de transformação ambiental cada vez que volta para a sua casa.”
A natureza ganhou espaço depois da pandemia
Na percepção de Klink, a procura por viagens de natureza e experiências também cresceu nos últimos dez anos. Ela relaciona parte dessa mudança ao período da pandemia de Covid-19, quando milhões de pessoas permaneceram isoladas em casa.
“Voltando no tempo, nesses últimos 10 anos, houve muito mais uma busca pela natureza com o incremento ainda do COVID-19, onde todo mundo ficou trancado em casa.” Ela identifica, ainda, um aumento do interesse pelas viagens de maneira geral e, dentro desse movimento, pelas experiências em ambientes naturais.
“Existe muito esse fluxo de viagem que aumentou demais. Existe um interesse maior por viagem do que antes. Existe um interesse maior por viagem de natureza.”
A busca também passou a se afastar, em alguns casos, do modelo de viagem centrado em grandes centros urbanos e compras. “Existe sim a história de que você tem a liberdade, a natureza, mais do que viagens para as principais capitais do mundo e grandes centros urbanos. A gente percebe que hoje a tendência é investir em uma viagem experiência muito mais do que em compras.”
E ressalva: “Pelo menos acontece com o grupo de pessoas que eu conheço. Não posso generalizar, mas acredito que seja uma tendência.”
Fotografar para mostrar a fragilidade do planeta
Como fotógrafa, Marina também carrega uma responsabilidade que vai além do registro estético das paisagens. Ao fotografar regiões remotas e sua fauna, seu objetivo é mostrar ao público a importância de preservar esses ambientes.
“O importante é passar exatamente a questão da conscientização ambiental sobre as regiões remotas. Mostrar para as pessoas a importância desse lugar existir, a nossa responsabilidade mesmo vivendo distante desses lugares, sobre as nossas atitudes do dia a dia, e o quanto isso vai comprometer um lugar como aquele.”

Ela chama atenção para a relação entre ações cotidianas e os efeitos em ambientes que parecem distantes da realidade de quem vive em grandes centros urbanos. “Pensar que aquele pinguim vive ali no gelo, porque a gente tem que cuidar da nossa poluição, do aquecimento global, das nossas atitudes, dos nossos descartes, e que isso tem um reflexo até mesmo naquele pinguim que a maioria das pessoas nunca verá.”
É justamente essa relação que orienta parte de seu trabalho. “Eu sei que o que eu procuro fazer é registrar coisas que tragam a consciência da fragilidade do planeta.”
Baleias, gorilas, primatas e felinos
Ao longo das expedições pelos sete continentes, Marina acumulou encontros com diferentes espécies. Quando questionada sobre o encontro com a vida selvagem que mais a emocionou, ela prefere não escolher apenas um.
“Eu acho que dificilmente eu posso elencar um, porque eu tenho encontros bem significativos, como encontro com baleias, com gorilas, com alces, com grandes primatas, encontro com felinos.”
Mais do que uma espécie específica, porém, existe algo que Marina considera ainda mais significativo: a possibilidade de continuar viajando e tendo autonomia para chegar a esses lugares.

“Eu diria que não é um encontro, mas o que mais me emociona é poder ter a minha liberdade, a saúde e a autonomia para poder chegar até lugares onde os encontros tragam para a gente uma sensibilização emocional e façam com que a gente se sinta cada vez mais viva.”
Marina: “Vá ver enquanto existe”
Se tivesse que resumir em uma frase o convite para alguém realizar uma viagem de expedição, Marina não hesita.
“Vá ver enquanto existe.”
E completa: “Está tudo lá, só depende do quanto você queira ver.”
Para ela, a frase resume tanto o desejo de conhecer os destinos quanto a urgência de compreender que esses ambientes não são permanentes e precisam ser preservados.
“Vá ver. Eu acho que essa seria uma frase boa.”

30 cruzeiros e uma primeira viagem inesquecível
Marina realizou seu 30º cruzeiro em julho deste ano. Ainda assim, quando questionada sobre qual foi a viagem mais marcante, escolhe justamente a primeira.
“Você tem uma vida normal e, ao mesmo tempo, a paisagem vai mudando a cada instante.”
A experiência também está relacionada ao ritmo da navegação. “Acordar, ver o nascer do sol, voltar a dormir, olhar novamente fora, ver a luz se transformando, a chuva caindo e a gente estar num lugar confortável, no meio do oceano, é uma sensação muito gostosa.”
Sete continentes, sem um destino preferido
As expedições já alcançaram os sete continentes. Apesar da diversidade de paisagens, culturas e ecossistemas visitados, ela não escolhe um continente como favorito.
“Eu diria que não tem um preferido, eu diria que todos os sete são maravilhosos, todos eles têm suas riquezas, muitas belezas e eu pretendo continuar viajando enquanto eu puder.”
A fotografia como forma de compartilhar o olhar
A escolha pela fotografia surgiu como uma consequência natural de sua relação com a natureza. Depois de tantos anos praticando atividades outdoor e viajando para diferentes partes do mundo, Marina encontrou nas imagens uma forma de dividir com outras pessoas aquilo que vivenciava.
“Eu escolhi a fotografia porque foi a forma que eu encontrei de compartilhar as vivências e o meu olhar sobre a natureza que eu tanto gosto.” Mas o objetivo vai além de compartilhar paisagens. A fotografia também se tornou uma ferramenta para ampliar a preocupação com a conservação.
“É também uma forma de compartilhar o meu olhar sobre a natureza e de alguma maneira multiplicar a minha preocupação sobre a conservação do planeta.”
Uma trajetória construída entre viagens, imagens e conservação
A trajetória de Marina Klink reúne mais de uma década de expedições, sete continentes explorados, 30 cruzeiros e um grande acervo de imagens produzidas em diferentes ambientes remotos. Em grande parte dedicado à Antártica, quando registra-se paisagens e animais de uma região que está em constante transformação.
Além da produção fotográfica, ela leva essas experiências para palestras, nas quais utiliza seus registros para construir narrativas relacionadas a conservação, sustentabilidade, comportamento e escolhas pessoais. Suas apresentações estabelecem conexões entre os aprendizados adquiridos em viagens e situações do cotidiano, incentivando o público a pensar sobre mudanças e sobre a busca pelos próprios objetivos. Ao longo dessa trajetória, a fotografia deixou de ser apenas uma forma de registrar os lugares visitados e passou a funcionar como uma maneira de multiplicar uma mensagem.
A mensagem, em essência, é simples: conhecer para compreender, compreender para preservar. E, nas palavras de Marina, fazer isso enquanto ainda é possível: “Vá ver enquanto existe.”
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