Da chegada à Costa por acaso, em Miami, à liderança das Américas, executivo encerra um ciclo de 24 anos na companhia e retorna à Itália para novos projetos pessoais
Por Aline Andrade
Algumas carreiras começam com um plano. A de Dario Rustico, não.
Quando deixou a Itália para estudar nos Estados Unidos, Dario não tinha como objetivo trabalhar no setor de cruzeiros. Morando em Miami e cursando um mestrado, procurava trabalhos que ajudassem a pagar as contas. Foi nesse período que começou a ter contato, nos fins de semana, com pessoas ligadas às operações da Costa Cruzeiros.
Uma das atividades era receber italianos que chegavam a Miami, acompanhá-los em passeios pela cidade e depois levá-los ao aeroporto. Era um trabalho pontual, feito para complementar a renda. Mas o contato abriu uma porta que, 24 anos depois, o levou a ocupar posições de liderança em diferentes mercados e regiões do mundo.
“Não tinha nada a ver com a Costa. A Costa apareceu lá”, lembra Dario.

A frase resume uma trajetória marcada por uma menor permanência em um único lugar do que pela sucessão de desafios. Ao longo de sua carreira, Dario participou da abertura de mercados, estruturou escritórios, desenvolveu operações e passou por diferentes regiões antes de chegar ao Brasil.
Uma carreira construída em movimento
Em 2002, o executivo entrou oficialmente nesse universo. Três anos depois, em 2005, recebeu a missão de ir para Hong Kong como diretor comercial para a região Ásia-Pacífico. Antes disso, havia participado da expansão internacional da Costa Cruzeiros, com a abertura de parcerias em diferentes países. A experiência asiática seria uma das mais marcantes de sua carreira.
A Costa ainda estava construindo sua presença na região e ele participou da estruturação de operações que posteriormente incluiriam mercados como China, Japão e Coreia do Sul. Em 2006, a Companhia iniciou uma operação na China com licença para embarque e desembarque de hóspedes no país, em um movimento que exigiu mais do que simplesmente levar um produto europeu para um novo mercado.
Era necessário entender hábitos diferentes.
Dario conta que, inicialmente, a empresa levou para a China um conceito baseado no produto europeu, incluindo excursões históricas. Com o tempo, percebeu que os hóspedes chineses tinham outros interesses e começou a adaptar a experiência, incluindo, por exemplo, mais oportunidades para compras.
Também havia diferenças culturais mais básicas. O próprio conceito de passar o dia na praia ou na piscina não era necessariamente percebido da mesma maneira que na Europa ou no Brasil.
“Fomos aprendendo. Conhecendo também o chinês”, relata.
A operação exigia, portanto, uma combinação de estruturação comercial e aprendizado cultural. Para Rustico, foi justamente essa sucessão de novos desafios que tornou possível permanecer 24 anos na mesma companhia sem sentir que fazia sempre o mesmo trabalho.
“Não conseguiria fazer isso”, afirma, ao falar sobre a possibilidade de permanecer durante anos fazendo a mesma coisa no mesmo lugar.

Da Ásia à Europa, até chegar ao Brasil
Depois de cerca de seis anos e meio em Hong Kong, Dario retornou à Europa. Passou a atuar no desenvolvimento de mercados da Europa Central e de outras regiões, participando também da abertura de escritórios em países como Turquia, Emirados Árabes Unidos e Índia.
A experiência se repetia: chegar a um mercado, entender suas características, formar equipes e criar relações comerciais.
Em 2015, surgiu o convite para assumir uma posição nas Américas. O início da operação brasileira ocorreu efetivamente em janeiro de 2016, depois de uma primeira etapa iniciada em novembro do ano anterior. Naquela época, Brasil e Argentina passaram a ser trabalhados simultaneamente, com escritórios em São Paulo e Buenos Aires.
A chegada aconteceu em um período de instabilidade econômica e política no Brasil. Para quem estava fora, havia uma percepção de risco que, segundo Dario, nem sempre correspondia ao que era possível enxergar localmente.
Foi aí que seu trabalho passou a ser também o de traduzir o Brasil para a matriz da Costa.
Naquele momento, a companhia operava navios menores na região. Dario e sua equipe começaram a construir argumentos para aumentar a capacidade da operação brasileira e, ainda naquele primeiro ano, trabalharam na mudança dos navios previstos para a temporada.

O processo levou à entrada de embarcações maiores e, nos anos seguintes, ao crescimento progressivo da capacidade e do número de navios.
Mas, para ele, a questão nunca foi apenas trazer mais navios. Era necessário convencer a matriz de que havia demanda e, principalmente, condições para construir um negócio previsível.
O Brasil visto de dentro e de fora
Essa talvez seja uma das questões mais importantes deixadas por sua passagem pelo país. Dario não vê a falta de demanda como o principal obstáculo ao crescimento dos cruzeiros no Brasil. Em sua avaliação, o desafio está na previsibilidade e na confiança necessária para que uma companhia internacional tome decisões com dois ou três anos de antecedência.
A indústria de cruzeiros, explica, trabalha com planejamento de longo prazo. Navios são posicionados, itinerários são definidos e vendas começam muito antes da temporada. Para um mercado ganhar espaço nesse planejamento, é necessário oferecer segurança sobre regras, custos e condições de operação.
“Temos que construir credibilidade” e “previsibilidade” são conceitos que aparecem com frequência em sua avaliação sobre o futuro da região.

Dario cita, inclusive, a dificuldade de compreender mudanças regulatórias e seus impactos futuros como um dos fatores que podem dificultar decisões de investimento.
Sua leitura é direta: Brasil e América do Sul têm destinos, clima e demanda. O que falta é transformar esses elementos em um ambiente que permita às companhias fazer planos com maior segurança. Ele resume a questão com uma comparação que parece simples, mas traduz boa parte de sua visão sobre o país: os ingredientes estão na mesa. Falta quem coloque tudo para funcionar.
Mais do que os navios
Ao olhar para trás, o diretor executivo da Costa Cruzeiros para as Américas, aponta diferentes momentos como importantes. A abertura das operações na Ásia ocupa um lugar especial justamente por ter acontecido praticamente do zero.
Ele lembra da chegada dos primeiros navios, da falta de infraestrutura e até de situações em que autoridades locais ainda precisavam aprender como lidar com uma operação de cruzeiros daquele porte.
No Brasil, a história foi diferente. Não se tratava de criar uma operação inexistente, mas de reconstruir confiança e ampliar uma atividade que a Costa já conhecia no país.
São experiências diferentes, mas que têm algo em comum: pessoas.

Quando perguntado sobre como gostaria de ser lembrado pela indústria brasileira de cruzeiros, Dario não escolhe um navio, um resultado comercial ou um cargo.
Escolhe o grupo.
Ele faz questão de dividir qualquer resultado com as pessoas que estiveram ao seu lado: equipes, agências de viagens, imprensa e parceiros. Para ele, uma carreira de 24 anos não pode ser resumida a uma única pessoa.
“Não é um negócio pessoal”, afirma.
A resposta diz muito sobre a maneira como enxerga o próprio percurso. Depois de tantos anos mudando de países, mercados e responsabilidades, o que permanece não são apenas os escritórios abertos ou os navios colocados em operação. São as relações construídas ao longo do caminho.
O fim de um ciclo
Agora, Dario encerra sua trajetória na Costa Cruzeiros.
Depois de 24 anos, retorna à Itália. A decisão não está relacionada apenas ao trabalho. Há também desejos pessoais e uma vontade de abrir espaço para uma nova etapa da vida. A saída encerra um período que começou quase por acaso em Miami, passou por quatro continentes e chegou ao Brasil em um momento particularmente complexo para o país.
É difícil encontrar uma linha única para explicar essa trajetória. Ela foi construída em movimentos: Miami, Hong Kong, Ásia, Europa, Américas. Em cada mudança, um novo mercado; em cada mercado, uma nova necessidade de aprender.

Talvez por isso Dario Rustico não trate os 24 anos como uma longa permanência na mesma empresa. Para ele, foram 24 anos de projetos diferentes.
“Fizemos várias coisas em vários lugares do mundo. Isso, para mim, era uma oportunidade de aprender, de crescer, conhecer pessoas, falar com pessoas.”
Agora, é ele quem muda de lugar novamente.
Desta vez, não para abrir um escritório, lançar uma operação ou desenvolver um mercado. Volta para casa para realizar desejos que ficaram esperando enquanto a carreira avançava.
A Costa segue seu caminho. O Brasil também.
E Dario leva consigo uma trajetória que, mais do que números ou cargos, foi construída na capacidade de chegar a lugares novos, entender o que havia pela frente e começar. Quase como naquela primeira vez em Miami.
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