Com quase quatro décadas de atuação no turismo, Ilya Hirsch relembra sua trajetória, analisa a evolução do mercado de cruzeiros e muito mais.
Por Aline Andrade
Há quase 40 anos dedicados ao turismo, Ilya Hirsch construiu uma carreira que acompanha a própria evolução da indústria de cruzeiros no Brasil. Fundador da Qualitours, hoje integrada ao grupo BeFly Travel, o consultor começou no transporte aéreo, mas encontrou nos navios sua verdadeira vocação. “Fui infectado pelo vírus dos cruzeiros”, resume, ao lembrar da transição que mudou sua trajetória profissional.
Formado em Direito, Hirsch chegou a cogitar uma carreira diplomática e, posteriormente, no Ministério Público. O destino, porém, o levou à Lufthansa, onde iniciou na área de reservas. O contato com viagens internacionais abriu caminho para o segmento marítimo, primeiro em empresas de navegação e, depois, na representação de companhias de cruzeiros.

Ao fundar a Qualitours, em 1990, apostou em um nicho ainda pouco explorado no Brasil: os cruzeiros internacionais premium e de luxo. Enquanto o mercado nacional era concentrado nas viagens pela costa brasileira, a empresa passou a apresentar aos brasileiros roteiros pelo Caribe, Mediterrâneo, Ilhas Gregas e outros destinos que, à época, ainda eram pouco conhecidos.

Para Hirsch, a expansão da oferta de companhias e itinerários transformou o cruzeiro em um produto muito mais acessível ao mercado brasileiro. Ao mesmo tempo, o segmento ganhou relevância para as agências de viagens, que passaram a enxergar nas viagens marítimas uma importante fonte de receita e fidelização de clientes.
Mercado amadureceu, mas ainda enfrenta desafios
Na avaliação do consultor, o Brasil possui potencial para receber mais navios durante a temporada, mas ainda convive com desafios operacionais que impactam a competitividade do destino. Entre eles, cita diferenças de procedimentos entre portos, custos operacionais elevados e processos burocráticos que, segundo ele, poderiam ser mais uniformes.
Apesar dessas questões, Ilya destaca que o mercado brasileiro continua sendo estratégico para as armadoras.
“O Brasil já demonstrou que existe demanda. As companhias conseguem operar com bons resultados quando adaptam seus produtos aos hábitos e preferências do público brasileiro”, afirma.
Ele lembra ainda que a temporada sul-americana faz parte da estratégia global das companhias, que deslocam parte da frota para o Hemisfério Sul durante o inverno europeu e norte-americano.
Luxo cresce impulsionado pela personalização
O segmento de luxo, que vem registrando crescimento consistente em diferentes mercados, também foi tema da conversa. Segundo Hirsch, o principal diferencial está na capacidade de oferecer uma experiência altamente personalizada.
“O viajante de luxo não quer ser apenas mais um a bordo. Ele espera que o serviço reconheça suas preferências e consiga surpreendê-lo”, explica.
Na prática, isso se traduz em uma proporção maior de tripulantes por hóspede, atendimento individualizado, gastronomia sofisticada e experiências desenhadas para cada perfil de cliente.
Entre os destinos mais procurados nesse segmento, o Mediterrâneo continua liderando o interesse dos brasileiros. O Alasca também vem registrando crescimento na procura, enquanto roteiros mais exclusivos, como Islândia e Groenlândia, começam a ganhar espaço entre quem busca experiências diferentes.
Cruzeiros fluviais conquistam novos públicos
Outro segmento que vem despertando o interesse dos brasileiros é o dos cruzeiros fluviais.
Para Hirsch, embora ainda exista a percepção equivocada de que esse tipo de viagem seja voltado apenas para um público mais velho, esse cenário vem mudando gradualmente.
Segundo ele, a combinação entre embarcações menores, roteiros culturais e maior proximidade com os destinos faz dos cruzeiros fluviais uma alternativa cada vez mais atrativa para diferentes perfis de viajantes. No entanto, ele acredita que ainda existe espaço para ampliar o conhecimento sobre esse produto.
“O conhecimento é tudo. Quando o profissional conhece o destino e entende o produto, consegue despertar o interesse do cliente por experiências que ele talvez nem imaginasse fazer”, observa.
Conhecimento continua sendo o principal diferencial
Ao analisar o mercado, o consultor da Qualitours acredita que a especialização ainda é um dos maiores diferenciais competitivos das agências.
Para ele, o profissional não deve apenas atender à demanda apresentada pelo cliente, mas atuar de forma consultiva, sugerindo novos destinos, acompanhando o pós-venda e antecipando futuras oportunidades de viagem.
“O agente de viagens precisa investir continuamente em conhecimento. Não basta esperar o cliente entrar pela porta. É preciso conhecer os produtos, entender o perfil de cada viajante e ser proativo”, afirma.
De acordo com ele, acompanhar tendências, participar de viagens de familiarização e estudar novos destinos são atitudes que agregam valor ao atendimento e fortalecem o relacionamento com o cliente ao longo do tempo.

A Antártica como experiência transformadora
Depois de visitar inúmeros destinos e navegar por diferentes regiões do mundo, o executivo não hesita ao apontar a Antártica como a experiência mais marcante de sua carreira. A travessia da Passagem de Drake, o silêncio absoluto do continente branco, o contato próximo com pinguins e a grandiosidade das geleiras fizeram da expedição uma viagem inesquecível.
“Você percebe o quanto somos pequenos diante da natureza. É uma experiência que desperta um enorme senso de preservação e respeito pelo planeta”, conclui.
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